Cigarros Ciganos - Cap.1




Dia TREZE.

-Por que você não se senta? -Seus olhos verdes ergueram-se por entre os cachos negros que pendiam sobre seu rosto, ela deu um sorriso mostrando seus dentes amarelados, os lábios eram carnudos, pintados por um vermelho forte e ao redor dos olhos passara um bom bocado de maquiagem escura.
-Você sabe que não vim aqui para isso… - Observei o local decadente, as velas vermelhas acesas e espalhadas sobre diversos tomos velhos e fedendo a mofo, as goteiras devido a chuva forte que caia naquela noite, os restos dos ratos que o gato preto comera, tudo ali tinha um forte cheiro de fumo, exceto pela mulher, que cheirava como uma dama da noite, seus olhos hipnotizavam. Ela puxou minha mão e observou a palma por alguns instantes, passando sua grande unha por cada linha, lançou-me um sorrisinho e embaralhou um montante de cartas deixando-as a minha frente sobre o tecido vermelho que cobria a mesa velha.
-Corte o baralho em três partes…
-Eu já disse que não vim aqui para…
-Apenas corte - Ela me interrompeu, e novamente os olhos verdes estavam cravados em mim, seu sorriso era encantador, e a obedeci. Dividi o monte em três partes, e as deixei sobre a mesa, a mulher tocou as têmporas e concentrou-se numa inspiração profunda. Quando suspirou ergueu os olhos a mim e virou cada novo monte de cartas. Um novo sorriso. - Eu vejo sucesso em sua vida.
-Por favor - Eu ri desdenhoso.
-Vejo três homens surgindo em seu caminho, dois te levarão à fama… Você três serão seguidos por multidões, vejo um futuro brilhante…
-E o terceiro homem? - Eu disse e fui contemplado por uma gargalhada que ecoou por todo o local.
-O terceiro é a morte! Será o preço a pagar por toda a sua fama - Ela acendeu um cigarro cor de carmim e lançou a fumaça em meu rosto enquanto juntava novamente as cartas, o suor escorreu por minha testa e ela riu de meu olhar perdido, atônito.
-Você só fala asneiras! - Gritei - Eu não quero saber das suas mentiras, vim aqui só para comprar cigarros!
-Eu sou uma cartomante querido, não vendo cigarros…
-Você sabe do que estou falando! - Bati o punho na mesa, afugentando o gato preto e derrubando o baralho de cartas - Me disseram que eu poderia encontrar fumo aqui…
-De que tipo de fumo está falando? - Fingiu-se de desentendida e sorriu, até que seu sorriso perdeu-se a observar as cartas caídas ao chão.
-Cigarros Ciganos… - Disse com a voz trêmula e ela levantou-se indo em direção a um outro cômodo.
-Deveria ter imaginado.
-Pensei que você soubesse de tudo… - Eu a segui. Ela riu ainda de costas para mim e tragou novamente o cigarro carmim.
-Eu sei o que as pessoas precisam saber…
-E eu preciso saber sobre os cigarros!
-Não meu jovem, as cartas não mentem… As cartas nunca mentem - A cigana inclinou-se e puxou uma caixinha negra de dentro de uma gaveta e ergueu uma das mãos ossudas pedindo primeiro pelo pagamento. - Não deveria vender isso para menores, mas não posso me dar ao luxo de escolher uma clientela.
-Como sabe que sou menor? Todos sempre acham que já tenho vinte e tantos anos.
-Não foi você mesmo que disse que eu sei tudo? - Riu passando-me a caixinha e depois retirou-se do cômodo, saltou sobre as cartas ainda caídas no chão e abriu a porta sob um rangido estridente de madeira velha e dobradiças enferrujadas. Quando passei por sobre as cartas notei o que a assustara, todos as cartas viradas para cima tinham o mesmo desenho e aquilo rondaria mais cedo ou mais tarde meus pensamentos, mas não ali, não naquele instante, todas aquelas palavras, por mais que me assustassem não faziam sentido, e hoje pediria por misericórdia para que aquelas palavras ainda não fizessem sentido.
-Você é um rapaz instigante... Volte para uma próxima sessão - Ela disse em voz trêmula, com um olhar de súplica, que parecia não querer transparecer, seu sorriso tremeu no rosto e os olhos tornaram-se impassíveis novamente debaixo de suas sobrancelhas bem desenhadas.
-Não espere muito por isso - Ri, com o guarda-chuva já aberto e me lancei para a calçada - Obrigado - Eu ergui a caixinha negra em duas balançadas e ela assentiu com a cabeça.
-Aproveite bem… - Disse antes de fechar a porta e cravou em mim o olhar pela vidraça da porta, deixando a pergunta “Aproveite a droga, ou que me restava de vida?” optei por acender meu primeiro cigarro e aquilo me bastou para aquela noite, mais uma das noites caóticas e desgastantes de São Paulo, mas que num futuro próximo ansiaria que aquela realidade caótica ainda fosse a minha realidade, a minha doce e estável realidade.
As primeiras tragadas me tiraram aqueles pensamentos depois de andar alguns quarteirões e eu entendi o motivo do tamanho sucesso daquela nova droga, naquela noite senti o paraíso, mesmo vivendo no inferno. Tomei um metrô para o centro e me enfiei num bar qualquer para ouvir a apresentação de uma banda de Blues e ali conheci o primeiro homem das cartas; aquele solo de guitarra talvez tenha sido o solo mais incrível que eu ouvira em toda a minha vida de rato de bares de música e eu estava fora de mim quando liguei meu contrabaixo em um dos amplificadores e iniciei um improviso para acompanhá-lo, eu estava fora de mim o tempo todo, como se aqueles malditos cigarros tivessem me guiado até aquele lugar. Eu estava fora de mim quando decidi que poderia enfrentar algo muito maior do que eu sendo um simples músico e quando eu e Ariel nos conhecemos estava fora de mim o bastante para trazê-lo a uma corrida infernal para o abismo… Até onde um homem vai pelo sucesso? Pergunte para as cartas, elas nunca mentem. Nunca…

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